Dicas

Conquiste o Leitor Desde As Primeiras Páginas

Imagine-se entrando em uma livraria numa tarde quente. O ar-condicionado deixando o clima agradável, o cheiro de livros lhe deixando mais a vontade… Então você vê “O” livro. Com aquela capa hipnotizante, o título misterioso.

Você não resiste, mesmo sabendo que precisa fazer algo muito importante dali a vinte minutos.

Você caminha em direção ao livro, pega-o, lê a contracapa, fica fascinado com a sinopse, lê a “orelha”, e seu interior grita por mais! Insaciável você continua… pula os dados catalográficos, pula o agradecimento do autor, pula o índice. As folhas sob seus dedos parecem tão macias, tão convidativas.

Então você chega à primeira pagina da história e lê ansioso.

“Há muito tempo atrás quando conheci Samantha, pensei ter encontrado minha alma-gêmea. Sua pele aveludada, cintura de pilão, seios volumosos, pescoço alongado, rosto anguloso, lábios carnudos… Algo nela me atraía, e era tudo! Vinha de uma família simples, tinha um trabalho sem importância, vestia-se de forma descuidada. Meu pai me falara há muito tempo atrás que…”

As primeiras linhas, até então, parecem interessante, mas você está impaciente, o ponteiro do relógio continua girando incansavelmente, e você segue lendo, tentando se conectar mais aquele livro.

Porém o autor parece dar voltas, enrolando e falando de tudo, menos sobre o que realmente importa. Cansado, e resignado, você devolve o livro à prateleira, e decide seguir seu caminho, porque você ainda tem muito que fazer naquela tarde.

Talvez o livro seja bom, talvez, futuramente se torne seu livro favorito, de toda a vida, mas naquele dia em que você precisava ter pressa, decidiu não compra-lo, porque você demorou a se conectar a história.

Tudo seria tão diferente se você abrisse aquele mesmo livro, e ao invés daquele extenso e cansativo texto de apresentação você encontrasse algo como:

“Então disparei, não uma, mas cinco vezes. Não hesitei em nenhum instante. Se algum dia eu cheguei a amar aquela mulher, no momento em que apontei minha arma para ela, só conseguia lembrar-me de sua traição. E, talvez, enquanto meu coração batia desconforme, e a adrenalina se instalava em meu peito, eu tenha odiado Samantha. Quando seus olhos dourados se cravaram em mim, eu me vi, juro que me vi.  E toda a razão que antes me fugira, estava ali, escapando dos olhos de Samantha, me acusando, enquanto a mulher que amei caia no chão, sem vida…”

Primeiras páginas convidativas são como o bilhete dourado dentro dos chocolates Wonka.

Eu mesma, como leitora, posso contar nos dedos de uma mão os livros que conseguira me prender através da primeira página.

Elas são importantíssimas para conquistar leitores. São elas que podem atrair ou repelir um leitor.

Como escritora, trabalhar tal habilidade é uma arte ainda em desenvolvimento.

Parece tão óbvio que o começo de uma história tenha de ser convidativo desde o principio, mas na prática, quando a ideia surge, a empolgação em escrever não nos deixa pensar muito nisso.

E como apaixonados por nosso trabalho, às vezes, agimos como pais orgulhosos, nos negando a ver que algo possa ser melhorado.

Uma tática muito comum de atração é jogar o ápice da história no prólogo, deixar o leitor afoito, curioso, e então seguir sua narrativa normal e pacientemente.

Um exemplo bem claro disso está em Crepúsculo, de Stephanie Meyer:

“Nunca pensei muito como morreria — embora nos últimos meses tivesse motivos suficiente para isso —, mas, mesmo que tivesse pensado, não teria imaginado assim. Olhei fixamente, sem respirar, através do grande salão, dentro dos olhos escuros do caçador, e ele retribuiu satisfeito o meu olhar. Sem dúvida era uma boa forma de morrer, no lugar de outra pessoa, de alguém que amava. Nobre, até. Isso devia contar para alguma coisa. (…)”¹

A autora nos joga em uma cena importante, decisiva da história. Difícil não se prender ao livro, difícil não querer continuar lendo para saber o que aconteceu, o que acontecerá.

Como se vê, não há muitos segredos ou truques, é simples: as primeiras palavras de um livro precisam incitar, provocar, fisgar o leitor.

Você não precisa desenvolver uma narrativa rebuscada, complicada, simplesmente mostrar o melhor de sua história.

Seguindo os exemplos, em A Hospedeira, também de Stephanie Meyer vemos o inverso disso.

O prologo é confuso, cheio de detalhes, apresentando-nos uma cena que exige atenção, nada atrativa à primeira vista:

“O nome do Curandeiro era Vau Águas Profundas. Por ser uma alma era por natureza tido que era bom: Compassivo, paciente, honesto, virtuoso e repleto de amor. Ansiedade era uma emoção incomum para Vau Águas Profundas. Irritação era ainda mais raro. No entanto, como Vau Águas Profundas vivia dentro de um corpo humano, irritação era, às vezes, inevitável. Conforme os sussurros dos curandeiros estudantes zumbiam no canto distante da sala de operação, seus lábios se pressionavam em uma linha rígida. Essa expressão estava deslocada em uma boca mais acostumada a sorrir. (…)”²

Particularmente, acho Stephanie Meyer “uma gênia” na arte da descrição. Ela consegue nos encher de tantos detalhes que não é difícil imaginar-se, sentir-se dentro da história.

A habilidade da descrição de Meyer é um dom, e também uma “maldição”.

Em A Hospedeira o lado negativo desse excesso de informações fica bem evidente.

O livro é quase todo monótono, cansativo. As 100 primeiras páginas são exaustivas. Mas esse não é ponto. A questão é o Prólogo. Ele poderia ser atrativo? Poderia, sim, mas Stephanie decide nos introduzir ao seu mundo distópico utilizando-se de uma cena de transferência de almas. É tudo tão confuso a princípio, sem muita explicação.

Se fosse um livro folheado, por mim, em uma livraria, eu, desistiria dele na hora. Mas como foi presente (thanks, mom!), continuei a leitura, e logo ele se tornou meu preferido da autora. Pois é, sou persistente!

A Hospedeira é um exemplo claro do que não se deve fazer em um prólogo: soltar informações demasiadas ao vento, deixando o leitor perdido.

Nessas horas eu penso em Gone, de Michael Grant. Esse livro, sim, é tudo o que eu amo como leitora, como escritora.

“Num minuto o professor estava falando sobre a Guerra Civil. No minuto seguinte, desapareceu. Assim. Sumiu. Sem nenhum “puf”. Sem clarão de luz. Sem explosão. Sam Temple estava na aula de história, no terceiro período, olhando com a expressão vazia para o quadro de giz, mas seus pensamentos estavam longe. (…) Por um momento pensou que havia imaginado aquilo, o desaparecimento do professor. Por um momento pensou que estava sonhando acordado. Virou-se para Maria Terrafino, sentada à sua esquerda. ‘Você viu isso, né?’”

O inicio de Gone, diferente de Crepúsculo, não nos mostra o ápice da história, e sim seu começo mesmo. O livro já começa cheio de ação. Não significa que ele não seja útil para o que quero exemplificar. Ele continua sendo atrativo desde o principio.

Em resumo, o começo de um livro deve ser mágico, ele precisa seduzir o leitor, convidá-lo para seguir com a leitura, enlouquecer uma pessoa com curiosidade, fazê-la comprar o tal livro sem pensar duas vezes. Como em um jogo de sedução.

Você está convidando alguém para dançar sua música preferida. Depois de este alguém aceitar, é preciso se manter no ritmo, mostrar que você domina aquela dança, e que ninguém além de você consegue ser melhor. Pode ser que no final da música seu acompanhante se apaixone, se irrite, lhe questione, mas seu objetivo é continuar dançando com ele, até que a musica acabe, até que seus corpos se afastem, e então ele decida se a dança foi boa ou não. Acho que fui clara o suficiente, não?

Primeiros capítulos devem ser mágicos e atraentes, ponto final. E citando o autor Thomas C. Foster, em “Para Ler Romances Como Um Especialista”, concluímos a questão assim:

“A primeira página, nesse contexto, não é tanto uma garantia quanto uma nota promissória: “Ei”, ela diz, “tenho uma coisa boa aqui. Você vai gostar. Pode confiar em mim. Me dê uma chance.” E é por isso que a primeira frase é tão importante.”

Espero que tenham apreciado o texto. Abraços!
____
Livros citados:
1. Crepúsculo, Stephanie Meyer, Intrínseca.
2. A Hospedeira, Sephanie Meyer, Intrínseca.
3. Gone, Michael Grant, Galera Record.
4. Para Ler Romances Como Um Especialista, Thomas C. Foster, Lua de Papel.

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2 comentários em “Conquiste o Leitor Desde As Primeiras Páginas

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