Conto

O conto que eu te conto #4 {Conformismo}

Toda vez que eu penso em me desfazer de Brian (meu celular), penso em todas as vezes que ele caiu no chão, ou nas outras tantas em que pisei, tropecei ou mesmo escorreguei nele, enquanto eu o deixava ao lado da cama, para carregar.

Um celular mais caro e mais moderno provavelmente não sobreviveria a tantos impactos.

Ouvi, certa vez, que dar nomes a objetos pessoais gerava apego, que por sua vez, gerava mais zelo. Certamente, se Brian pudesse falar, depois de me xingar com palavras sujas, discordaria totalmente desse método.

O fato é que apesar de eu muito desejar jogar Brian na parede, cada vez que ele trava, e pensar em economizar dinheiro para comprar um aparelho “melhor”, acabo desistindo quando penso em sua durabilidade. Acho que acabei me conformando com seus defeitos, levando em conta meu “cuidado”.

Dizem que cada um recebe o amor que acredita merecer, ou algo assim. Não que isso tenha muito a ver com Brian e eu. Mas levando meu conformismo em conta, Marcos (meu namorado) se encaixa bem nesse exemplo.

Não me entenda mal. Não bato nem piso e tão pouco tenho vontade de jogar Marcos na parede, tudo bem que, às vezes, ele me irrita, mas mesmo assim.

Marcos raramente faz algo que me tire do sério. Ao contrário, ele me trata como se eu fosse sua princesa, me enchendo de mimos, carinhos e derretendo-se em romantismo… Este é o problema. Sim, eu disse P-R-O-B-L-E-M-A. É que simplesmente não suporto isso. Nada de poemas, músicas de amor, de jantares à luz de velas, pétalas cobrindo minha cama… É tudo demais para mim.

Sei que o tal problema está em mim, em não ser suficiente mulherzinha para gostar de todo esse romantismo “água com açúcar”, que não sou a princesa que Marco sonha. Fui criada no meio de três irmãos, sempre preferi jogar bola a brincar de bonecas, o que posso fazer?

Tenho consciência que há algo de errado em meu coração (ou cérebro), mas não se pode trocar os órgãos por mau funcionamento emocional.

A única saída é trocar de namorado, eu decidi semana passada. Mas contradizendo tudo que sinto — ou não sinto, melhor dizendo —, penso no futuro.

Me imagino aos sessenta e cinco anos, alimentando vinte e cinco gatos de rua. Vivendo ociosos dias de rotina, passando solitárias horas limpando a casa, ou pior, não limpando nada, enquanto os vinte e cinco gatinhos lamuriosos se esfregam em mim, pedindo atenção, provocando uma crise de asma alérgica, me matando instantaneamente. Sem ninguém para sentir minha falta, apodrecerei no chão sujo da minha casa, enquanto os gatos, mortos de fome não têm alternativa a não ser comer meu rosto. Talvez algum vizinho sinta falta da “Louca dos Gatos”, ou não, nunca saberemos.

Se você se perdeu durante meu delírio, deixe-me enfatizar: SOLIDÃO. É isso que eu temo. Temo não encontrar ninguém para amar, temo que o karma escreva meu nome em sua lista negra, caso eu desperdice o amor que Marcos me oferece.

E assim, como faço com Brian, me conformo.

Tento não olhar o celular de ultima geração na vitrine a caminho do trabalho, tento ignorar o olhar do advogado que trabalha na mesma empresa que eu. Em ambos os casos, o custo-benefício não caberia no meu orçamento, então desisto e ignoro as ideias rebeldes em meu cérebro, e sigo aceitando o que eu acredito merecer. Ninguém sai ferido, ninguém se arrisca em vão. Mas quando a noite surge, ou quando meu celular trava, não posso evitar sonhar, posso?

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2 comentários em “O conto que eu te conto #4 {Conformismo}

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